O Peru era um sonho antigo. Muito antes de termos filhos, já queríamos fazer essa viagem — Lima pela gastronomia, ceviche, pisco, tudo que a cidade representa para quem gosta de comer bem. Por uma série de razões, a viagem foi adiada por anos. E como era meu aniversário, e a gente sempre viaja no meu aniversário, resolvi escolher o Peru. Arriscar com as crianças. Apresentar a elas essa cultura riquíssima.
Foi uma das melhores decisões que tomei. A viagem foi incrível, todo mundo adorou, e fiquei impressionado com o quanto os meninos se envolveram com tudo — a cultura, as roupas, a comida, os animais, as ruínas. Me surpreendeu positivamente.
Como chegamos: Lima → Cusco
Voamos do Rio de Janeiro para Lima e de lá pegamos um voo doméstico para Cusco pela Latam Perú. O trecho Lima–Cusco dura aproximadamente uma hora. Rápido e tranquilo.
Mas chegando em Cusco, não fomos direto para a cidade. E essa foi uma decisão fundamental.
A estratégia de altitude: Urubamba primeiro
Cusco fica a 3.400 metros de altitude. O aeroporto, ainda mais alto. Chegar direto da praia e sair caminhando pela cidade é pedir para passar mal. Pesquisamos muito antes e adotamos uma estratégia: do aeroporto, pegamos um transfer direto para Urubamba, no Valle Sagrado, que fica a cerca de 2.800 metros.
Ficamos duas noites em Urubamba antes de subir para Cusco. A aclimatação foi perfeita. As crianças não tiveram nada. Quando chegamos em Cusco, o corpo já estava adaptado e conseguimos aproveitar a cidade sem aquele mal-estar típico da altitude elevada.
Não vá direto do aeroporto para Cusco. Passe pelo menos duas noites no Valle Sagrado — Urubamba, Pisac ou Ollantaytambo — antes de subir para a cidade. Essa progressão de altitude faz toda a diferença, especialmente com crianças. Foi essa experiência no Peru que nos ensinou a estratégia que repetimos depois na Bolívia.
O guia que fez a diferença
Contratamos um guia local — nascido na região, com raízes profundas no Vale Sagrado. Falava quéchua, espanhol e inglês. Conhecia lugares que não aparecem nos roteiros turísticos padrão. Essa escolha foi fundamental para a qualidade da viagem.
Com ele, passeamos muito de carro pela região. Fomos a Morai, com seus extraordinários terraços circulares incas. A Maras, com as salinas que existem há séculos. A Ollantaytambo, com suas ruínas e a vista impressionante do vale lá de cima. E a um espaço com alpacas e lhamas que as crianças simplesmente não queriam deixar.
Ollantaytambo
Ollantaytambo é uma das visitas mais impressionantes do Valle Sagrado. Uma cidadela inca em excelente estado de conservação, com terraços que sobem pela montanha e uma vista de tirar o fôlego sobre o vale e a cidade lá embaixo. Subir até o topo exige fôlego — estamos a mais de 2.700 metros — mas vale cada passo.
Machu Picchu: a história que não aconteceu
Resolvi essa viagem de uma hora para outra, em agosto. Quando fui pesquisar sobre Machu Picchu, descobri que os ingressos estavam esgotados desde fevereiro. Existe uma alternativa de tentar comprar na véspera, por agências em Cusco — mas a logística era complicada demais para crianças pequenas: acordar três da manhã, transporte, fila, incerteza. Acabamos não indo.
Os ingressos para Machu Picchu esgotam com muita antecedência — às vezes meses antes. Se Machu Picchu é prioridade na sua viagem, compre o ingresso antes mesmo de comprar a passagem aérea. Não deixe para resolver chegando lá.
No fim, foi sorte. Na época em que estaríamos lá, houve uma greve geral dos maquinistas de trem que fazem o trajeto. Mais de cinco mil turistas ficaram presos, sem conseguir voltar. Um caos. Não ter ido ao Machu Picchu foi, involuntariamente, a melhor decisão da viagem. E com um guia que conhecia a região de verdade, encontramos alternativas que valem tanto quanto. Machu Picchu fica para a próxima.
Cusco: a cidade que surpreende
Cusco é cosmopolita de um jeito que não esperávamos. A Plaza de Armas é muito linda — uma das mais bonitas que já vimos na América do Sul. Pelas ruas, turistas do mundo todo: suecos, alemães, japoneses, franceses. A cidade tem uma energia muito particular.
Nosso guia nos levou a Chincheros, um povoado próximo com um mercado têxtil que vale muito a visita. Compramos recordações lindas — tecidos, mantas, capas de almofada, ponchos de alpaca. A qualidade é impressionante e os preços são muito interessantes. Voltamos com a mala cheia e já com vontade de voltar para comprar mais.
Restaurante Chicha: imperdível
Em Cusco, o restaurante Chicha é parada obrigatória. É do chef Gastón Acurio, um dos maiores nomes da gastronomia peruana, e traz o melhor da cozinha andina num ambiente sofisticado e acolhedor. Comemos muito bem. É o tipo de experiência gastronômica que justifica uma viagem.
Ureta Hotel
Uma excelente escolha para Cusco — bem localizado, acolhedor e com um proprietário que faz toda a diferença.
O Ureta Hotel foi uma escolha muito acertada. Super bem localizado, café da manhã delicioso, quartos muito confortáveis. Mas o grande diferencial é o proprietário — extremamente simpático, ficamos conversando por horas. Brasileiros são muito bem-vindos por lá.
Booking.com — Integração em andamento. Link disponível em breve.
Vale a pena com crianças?
Muito. O Peru surpreendeu pelo quanto as crianças se envolveram com tudo. As alpacas, as ruínas, as roupas típicas, a cultura inca — tudo despertou uma curiosidade genuína que não esperávamos. É um destino que educa sem precisar explicar nada.
Voltaria?
Sim. Ficamos com muita vontade de voltar — e com mais espaço na mala para trazer mais mantas, capas de almofada, ponchos. E desta vez com ingresso do Machu Picchu comprado com meses de antecedência.